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Uma espiritualidade à brasileira em resumo: Dona Flor e seus dois maridos

  • 3 de set. de 2017
  • 4 min de leitura

Embora este não seja tema central, existe uma leve tensão entre vida urbana e vida rural. É oportuno observar que todas as cenas do livro, se dão na cidade, isto é, em um ambiente mais propício ao desenvolvimento da temática: tradição x vadiagem ou devasso x conservador.

De fato, o malandro Vadinho (marido morto de Dona Flor) representa o aspecto devasso da vida urbana baiana. De outro lado, Teodoro (o novo marido) representa o aspecto conservador da vida urbana. Aliás, parece que o autor escolheu muito bem estes nomes. De fato, o nome “Vadinho” lembra o termo “vadio”. Por outro lado, o nome Teodoro tem um significado clássico: em grego significa “presente de Deus”, vendendo assim a expectativas que muitos tinham: agora que se casou com um homem direito, Dona Flor seria feliz!

Esta oposição fática é o substrato para a caracterização de cada uma destas personagens. Vadinho viveu na esbórnia e morreu nela. Por outro lado, Teodoro vive para a farmácia e para os ensaios de fagote. Fagote, como se sabe, é um dos instrumentos de sopro mais difíceis de se tocar, exigindo rígidos e constantes ensaios. Sua apresentação se dá na orquestra de câmara, em ambiente cerimonioso e nobre.

Vadinho ao morrer no carnaval nos traz um alerta: o carnaval é um espaço “desregrado”. É o lugar da bebida, da “cachaça”. Morrer no carnaval é morrer como qualquer um, como um simples brasileiro que deseja viver longe das regras sociais. E a “coroação” desta brasilidade está no funeral de Vadinho: vestido de baiana. A boemia, ao contrário da vida regrada, sinaliza a “vida nacional”. Vale dizer que o desejo do brasileiro em geral é viver sem regra. O espírito da festa coincide com a “espiritualidade brasileira”, otimista, festeira.

Dona flor, depois da morte do Vadinho, volta para sua rotina normal na escola de culinária. Com o passar do tempo, embora conserve a memória de Vadinho – e principalmente da sua maneira devassa de a amar – Dona Flor volta a se “esquentar”, isto é, a ter desejos sexuais. Aí, como “a carne é fraca”, ela deixa de lado suas memórias e parte para conviver com seu segundo marido, este sim, de vida regrada, ao som da música clássica do fagote. Uma nítida alegoria de conflito entre dois mundos: “o que se deseja” e “o que se tem de fato”.

A sexualidade que atiça Dona Flor como natural que é, se opõe à vida regrada que tem que levar ao lado de Teodoro. Neste momento, a vida dela se abre para as duas realidades: do passado sofrido mas devasso e do presente regrado, mas sofrido. Vale dizer: Dona Flor sofria com Vadinho por um motivo (a safadeza dele) e continuou sofrendo com Teodoro por outro motivo (a vida racional dele). Por outro lado, ela apreciava em Vadinho uma maneira de viver (vida energética, acalorada) e passou a apreciar em Teodoro outra maneira de viver (a estabilidade e a segurança). Assim, nenhum dos dois era perfeito para ela. Com o que, ela só se completaria vivendo simultaneamente com ambos: um morto e o outro vivo.

Esta possibilidade de se viver ao mesmo tempo com um morto e outro vivo tem raízes na cultura afrodescendente. E este aspecto está disseminado na cultura baiana e, por extensão, na mentalidade brasileira. Neste momento, devemos ressaltar que o autor conseguiu exaltar o conteúdo tipicamente brasileiro, isto é, distinto do jeito “ensinado” pelo colonizador. Este conteúdo, ao mesmo tempo em que se manifesta como oposição à vida regrada pela teologia europeia, ressalta os traços de outros sujeitos presentes na cultura brasileira: os sujeitos de múltiplas origens, como os africanos e indígenas.

Além disto, ao trazer à tona a possibilidade de se evocar o espírito do morto para conviver/fazer amor com ele, a obra deixa claro que se está a trabalhar sobre outra plataforma que não a teologia cristã europeia: está-se trabalhando sobre a plataforma da umbanda, do candomblé e do espiritismo, o que significa uma autonomia em relação à colonização europeia em termos literários e teológicos. Ou seja: a teologia europeia estaria representada pelo instrumento clássico de Teodoro, enquanto que a “teologia brasileira” estaria representada no “coração aquecido” pelo fogo da paixão que faz a jovem se remeter ao vadio mas “vivo” na alma, Vadinho.

Temos aqui mais um elemento da “alma nacional”: a carne fala mais alto que eventual religiosidade ou moral religiosa. Aliás, este tema já fora tratado pelo romancista Júlio Ribeiro em sua obra A Carne (1888), obra esta que por longos anos fora proibida aos jovens por parte dos padres. Mas, aqui podemos fazer uma breve comparação: Lenita, personagem principal do romance A Carne, de Júlio Ribeiro, sente-se atiçada pelos desejos da carne e, depois de um namoro com Manuel Barbosa, um homem separado da esposa e filho do fazendeiro que a acolheu, engravida e o romance acaba em tragédia.

Jorge Amado supera a tragédia da obra paralela, escrita por um inimigo do clero de então, para ressaltar a “alma nacional” em um outro contexto em que vale mais a decisão pessoal, sendo que “o fogo interior da paixão” dita as regras da decisão. Dona Flor consegue esta proeza, convivendo com dois homens: um vivo, Teodoro, e outro morto, Vadinho. Mas, para ela, os dois estão vivos. Ela supera as culpas e o pudor impostos por uma moral estrangeira.

E neste contexto podemos dizer que esta obra consegue ressaltar a “espiritualidade brasileira”, quando acentua um certo “padrão” não dogmático da religiosidade: a vida atual guarda relação direta com a “vida pós-morte.” E, bem por isto, Dona Flor consegue, ao mesmo tempo, aproveitar simultaneamente a energia de Vadinho e de Teodoro. E não é demais lembrar que as aparições do antigo marido foram “evocadas” por ela. A evocação do espírito dos mortos é uma constante na cultura popular brasileira, como parte de uma “espiritualidade comum”. Sendo assim, a espiritualidade brasileira tem uma força não dogmática, ou seja, a espiritualidade brasileira é uma força autônoma, em relação à dogmática europeia. Neste contexto, pode-se dizer que o “jeitinho brasileiro” significa um jeito de vida que expulsou de si o colonizador.


 
 
 

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© 2017 Drica Rocha, Academia Internacional de Líderes

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