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Infantilização de Adultos e Adultização de Crianças

  • Ricardo Gonçalves, Eduardo Sales e Afranio Andrade
  • 20 de nov. de 2017
  • 8 min de leitura

Esta temática refere-se a um fenômeno que todos nós estamos presenciando desde o final do século passado e se mostra mais acentuado nestas duas primeiras décadas do século XXI. E tal fenômeno pode nos parecer muito estranho à primeira vista. Afinal de contas, é possível infantizar/infantilizar um adulto? E, por outro lado, seria possível adultizar uma criança? Por incrível que possa parecer, a resposta é positiva.

Em rápida visita ao passado da humanidade, podemos constatar que, em geral no período que compreende o século VI aC até o século I dC, tanto em Roma como na Grécia a criança era vista como “adultos imperfeitos”. Isto significa que em geral não se tinha efetivamente a visão da criança em si, mas do adulto que ainda não alcançou a sua maturidade ou, como se dizia em grego, a sua “perfeição”. Resquício desta visão encontramos, por exemplo, no apóstolo Paulo, quando, escrevendo aos corintos em 1 Cor 13:11, acentua que: “quando eu era infantil [νήπῐος], falava como infantil, raciocinava como infantil. Mas logo que cheguei a ser adulto [ἀνήρ], acabei com as coisas da infância.

Uma das grandes contribuições do Cristianismo para o Ocidente foi estabelecer a diferenciação entre a criança e o adulto. Na realidade, o povo judeu foi o único povo do passado que fez esta diferenciação e o cristianismo a herdou do judaísmo. E foi esta herança que fez com que durante toda a Idade Média, as crianças passassem a ter um lugar privilegiado na comunidade, na condição de “anjinhos”, sem pecado e sem responsabilidade. Entretanto, com o advento da Idade Moderna, a criança volta a ser vista como adultos em potencial e esta visão veio a ser reforçada com a escola moderna que passou a preparar a criança para ser o “futuro” de uma nação. Ao mesmo tempo em que esta visão da modernidade acentuava a esperança na criança, paradigmaticamente a colocava como ser desprovido de responsabilidade e de participação ativa na sociedade, já que se constituía em um “ser do futuro”.

Durante a Revolução industrial, as crianças dos proletários passaram a ser entendidas como “pequenos adultos” e foram manipuladas pelo capitalismo industrial que as colocava nas minas de carvão na Inglaterra para extrair e transportar o produto, com horas e horas de trabalho forçado, trabalho este que era pago diretamente para o proletário, isto é, o pai da prole. Neste momento, para os adultos que possuíam apenas a força de trabalho surge a ideia e a prática de se ter mais e mais filhos para que, trabalhando, pudessem colaborar nas despesas da casa, agora no contexto da problemática urbana, sem infraestrutura e em precárias condições de vida. É a história do proletariado.

Dando um salto histórico para os dias de hoje, presenciamos este fenômeno da infantilização de adultos e a adultização de crianças. Ocorre que, conforme acabamos de ver, as categorias “criança” e “adulto” não são categorias naturais. Elas são construídas histórica e socialmente, sob influências culturais e econômicas. Assim, por exemplo, “ser criança” na Suécia, onde se tem todo um aparato do Estado, da família e da sociedade que visa a atender suas necessidades presentes e lhe direcionar para uma vida integrada nesta mesma sociedade, é muito diferente do que “ser criança” na Faixa de Gaza, onde sequer há um Estado; onde a sociedade como um todo sobrevive à sombra das ameaças do Estado Judeu que lhe usurpou o território em 1948 e a família se constitui em um núcleo de sobreviventes meio a tantas dificuldades. Nesta família, não raro as crianças tem que pegar em armas para se defenderem.

Sendo assim, enquanto criações sócio-econômico-culturais, estas categorias estão sujeitas a diversos fatores, de maneira que, dependendo das circunstâncias e dos interesses reinantes na sociedade em determinado momento tem-se a tônica ora no adulto, ora na criança.

Vivemos a era dos adultos infantilizados. Quem é que os infantiliza? A resposta é simples. O mercado. Este detentor do maior poder efetivo na sociedade, o qual ultrapassa fronteiras e se perlonga no tempo se adaptando de acordo com as suas conveniências, desponta-se no século XXI como o motivador para que adultos sejam cada vez mais dependentes dos outros, na medida em que cada vez mais se sabe menos de tudo e se torna menos hábil para atender à especialidade que lhe são exigidas para sobreviver.

Neste contexto, o adulto se vê melhor como não responsável e passa a delegar para outros tudo que for referente à responsabilidade. Ele não é capaz mais, por exemplo, de responder pelos seus sentimentos, e necessita contratar um profissional para lhe ajudar a resolver este problema. Além disto, ele passa a necessitar de alguém para lhe ensilar a vestir, a conseguir emprego, a namorar, a lidar com conflitos matrimoniais e profissionais, a arrumar as finanças. Vale dizer, estes adultos infantilizados passam a necessitar de alguém que lhe “ensine” a ser responsável, a assumir o seu lugar de adulto, perdido em um universo em que o mercado exige dele cada vez mais daquilo que ele menos tem: a segurança de se auto afirmar enquanto ser responsável, enquanto uma identidade adulta. E parece que está bem neste ninho a tendência de não se querer assumir a condição de adulto.

Por outro lado, verifica-se que este mesmo mercado, através dos meios de comunicação de massa, utiliza-se das crianças para melhor divulgar seus produtos. E, divulgando-o, encontra nas outras crianças o desejo de os adquirir. E os adquirir necessariamente. Mercadorias absolutamente inúteis se tornam, neste mercado, como coisas absolutamente necessárias. E a geração que a quer adquirir pode ser tranquilamente chamada da geração do “eu mereço”.

O mercado criou os adolescentes destas décadas recentes com a noção de que eles “merecem” tudo que o mercado coloca à venda. E, pior, fê-los perder a noção de que as mercadorias tem preço e sua aquisição se dá por meio de um pagamento e que, para se fazer o pagamento, necessita ter dinheiro e o dinheiro é difícil de ser conseguido. E como perderam esta noção? O astuto mercado utiliza a linguagem da “facilidade”. Nenhum anúncio diz que o adolescente não adquire determinado tênis porque não tem dinheiro. Diz que ele ainda não o adquiriu porque não tinha facilidade. Agora, esta tudo facilitado.

São estes adolescentes que não se veem como responsáveis por nada e bem por isto não tem que “fazer por merecer”. O simples fato de existirem já os faz merecedores de tudo que o mercado coloca à sua disposição.

Ocorre que, diante de pais frágeis que perderam sua autoridade de pais tanto no campo político-jurídico quanto no campo familiar, estes adolescentes e jovens assumem o lugar do adulto e são, portanto, adultizados pelo mesmo mercado que infatiliza seus pais. São estes mesmos “merecedores” que em casa falam mais alto que os pais, na escola, humilham professores e ao espaço público comparecem para “atos políticos” motivados pelas redes sociais, sem qualquer noção de que estão sendo manipulados por interesses escusos. Estes são os seres infantis adultizados ocupando espaço deixado pelos adultos infantilizados. Ambas as categorias são criação sócio-cultural-econômica dos dias atuais.

Sorria, você sempre está sendo filmado

Dentre as principais invenções da lógica de mercado, está a família moderna. O sentido da família é um pensamento que não deveria nos escapar. É possível que os conceitos de família tenham alterado fundamentalmente após a revolução francesa e a industrialização. Karl Marx já apontava para a alienação da vida, para o poder escravizador da mercadoria. As sociedades organizadas em função do capital, uns pela exploração e outros pela necessidade. Por trás desse fenômeno o desenvolvimento de Foucault sobre o bio-poder e os sistemas de vigilância. Mecanismos que identificaram a sociedade sendo tratada como um meio para se atingir um fim. O bio-poder e os sistemas de vigilância revelam como a vida está disciplinada e orientada para o capital. Os sistemas de vigilância estenderam-se por toda a sociedade garantindo que todas as pessoas sirvam ao mercado. Talvez, de uma forma mais funesta, como parece apontar Burdieu, fomos transformados em produtos da sociedade, castrados diariamente da possibilidade individual.

Como a família subsiste numa sociedade escravizadora, focada no bio-poder, que vigia, infalivelmente, todas as relações, a fim de explorar todo segundo, todo fôlego de vida? Não há paz. A lógica de mercado invade e controla, inclusive, e, porque não, principalmente, as formas de reprodução. O gerenciamento da vida. Desde antes de nascer. Espermatozóides e óvulos são preservados em geladeiras e explorados como meio de manipular a vida. A criação da infância e da adolescência, as diversas manipulações da juventude e da vida adulta. Nem a terceira idade escapa. Pensem comigo: Depois de tudo isso, não é engraçado ver a preocupação bio-ética com experiências em seres humanos? A muito tempo o ser humano foi transformado em rato de laboratório.

O pior é que as repostas de Foucault e Bourdieu são trágicas. Como se estivéssemos presos em uma grande caixa de formigas: Livres, porém presos; sozinhos, mas, sempre vigiados; proprietários, mas, pertencendo a alguém. É nesse contexto que penso os movimentos de adultização da infância e infantilização do adulto. São formas de controle e vigilância, estruturas socialmente programadas. Uma grande caixa de formigas que recentemente foi virada de ponta-cabeça, mas que continua sob intensa vigilância.

Não sei se existe reposta para tudo. Às vezes, quando escrevemos, pensamos que sim. Doce ilusão. Até aceito um pouco de utopia como forma de manter a aparência de felicidade, como nas caixas de formiga, algumas até que são bem arrumadinhas. Entretanto, parece que dentre as poucas soluções possíveis está a possibilidade da subjetividade. Algum tipo de libertação, nem que seja ideológica. Talvez esse seja um caminho de esperança. A possibilidade de um ponto neutro na disputa pelos campos de poder. A possibilidade de um local livre de estratificação. Um local onde as estruturas sociais não exerçam tanto poder, onde podemos romper com os códigos e programações, um local onde valoriza-se o que realmente tem valor. Um local de liberdade dentro da prisão social em que vivemos. Esse é o conceito de família que precisamos.

DICAS DA TRIBO PÉ NO CHÃO:

  • Amplie sua auto percepção. Perceba em que momentos se torna um adulto infantilizado. Não pense que está imune a este fenômeno, negação não ajuda. Se tiver dúvidas, pergunta às pessoas mais próximas, mas não fique chateado(a) com as respostas, use-as para desenvolver-se mais.

  • Observe, se você for pai ou mãe, se está dando mesmo espaço para seu(s) filho(s) ou filha(s) serem crianças de verdade. Garanta que isso seja possível na vida dele(s) ou dela(s).

  • Se seus filhos já são adolescentes o trabalho aumenta um pouco, é hora de ajuda-los a alternar dever e prazer. Desde a infância se sabemos equilibrar LIMITES com LIBERDADE, fica mais fácil. Se não o fizemos, muito diálogo será necessário assim como, talvez, algum apoio profissional.

  • Encontre os reais motivos pelos quais pode estar tendo reações infantis. Eles estão ai, bem na sua frente. Encare-os e assuma o leme.

  • Faça planos, sonhe, busque viver uma vida que faça sentido para você. Sabemos que em tempos de tanta luta pela sobrevivência é difícil para alguns sonhar. Mas ter esperança e alinhar nossos esforços com nossos reais objetivos nos fortalece e motiva muito fortemente.

  • Estude de si. Procure conhecer-se com profundidade. Explore sua espiritualidade.

  • Leia mais. Estudar assuntos interessantes e pessoas interessantes pode ajudar você a modelar suas reações com mais inteligência. Aprendemos muito com a vida e até com as experiências de outras pessoas. Mas para isso precisamos estar abertos(as) e interessados(as).

  • Faça um compromisso com você mesmo(a) e retire do seu repertório aqueles comportamentos infantis que tem atrapalhado você nos últimos tempos. Não faça por mais ninguém, faça apenas por você. Ative gatilhos mentais que te ajudem a controlar as reações e concentre-se nos resultados positivos que virão com a mudança. Lembre-se que no lugar de um comportamento você pode colocar outro comportamento.


 
 
 

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